04. Pura duração vazia de conteúdo: uma ideia singularíssima e suas consequências

A ação da noluntade produz um estado mental especialíssimo: de olhos fechados, imóvel, em um ambiente escuro e silencioso, e decidido a não permitir que nenhuma ideia dure em sua mente o suficiente para erguer-se com pretensão de verdade, o meditador produz um estado mental voluntário e intelectualmente determinado, que é também uma ideia que, mais do que simplesmente representar, se confunde com o ambiente ao redor: uma ideia de escuridão e silêncio, uma pura duração vazia de conteúdo.

Parafraseando Santo Anselmo, poderíamos dizer que “nada de menor pode ser pensado”.

Essa ideia claramente não se confunde com o meditador, mas, ao contrário, se apresenta como um produto voluntário (ou diríamos melhor criando o neologismo “noluntário“) e por isso evidente – literalmente auto-evidente – de seu espírito, isto é, de seu intelecto e de sua volição.

Ao mesmo tempo, é uma ideia indubitável sob qualquer ponto de vista – tanto psicológico como lógico. Como duração, é sempre igual a si mesma; como ideia, se confunde com seu objeto: literalmente, a escuridão e o silêncio. Em termos aristotélicos, seria a reapresentação mental da “potência pura” ou “infinito potencial”. Matematicamente, seria o conjunto vazio ou o zero.

Talvez seja necessário acrescentar, como síntese: uma “pura duração vazia de conteúdo” é, como ideia, uma representação do vazio – isto é, do nada. Logo, se o nada é respresentável, ele não é um absoluto nada (que, por definição, seria irrepresentável!). Posso, portanto, inferir que o nada não é (o que significa dizer qyue o nada não é nada, mas algo que não é ainda) – ou, dito positivamente, que o nada é pura potência de ser. Parece um jogo confuso de palavras – mas tem de ser assim, pois estamos nos limites da linguagem.

É, enfim, uma ideia genuinamente minha que me permite por isso inferir que posso ter ideias – ou ao menos uma ideia verdadeiramente minha. Logo posso dizer: “penso, existo”. Ou simplesmente: “sou”. O que sou? Um. Indubitavelmente um. Um o quê? Dadas as condições de momento, é legítimo seguir Descartes e dizer: “um ser que pensa” E mesmo, para ser exato: “um ser que quer e que pensa”. E talvez pudéssemos acrescentar: um ser que pensa o que quer pensar. E por que “ser”? Porque duro. Então, finalmente, da certeza fundada na produção dessa pura duração vazia de conteúdo que se impõe como ideia verdadeira e indubitável, extraio um critério de existência: “tudo que dura, é”.

Não é pouca coisa como resultado de um experimento tão simples.

E obviamente – será preciso explicá-lo? – não há nada de circular na elaboração desse estado mental, da ideia que dele resulta e das conclusões que daí extraio.

Penso, existo – sem sombra de dúvida. Se Gênio Maligno há, ele já não me parece assim tão poderoso.

Insisto: “Penso, existo” é a conclusão, a finalização de um experimento que tinha por objetivo verificar a possibilidade de se constituir uma ideia indubitável, isto é, imune à falsidade absoluta projetada pela hipótese gnóstica e herética do Gênio Maligno. Ao impor-me sobre o Gênio, eu me afirmo como indubitavelmente pensante e desejante.

Mas que ideia é essa? Já dissemos, uma pura duração vazia de conteúdo.

Como ela se constitui? Não deixando que nenhuma ideia que me ocorra dure o suficiente para erguer uma pretensão de verdade e isolando o quanto possível os estímulos sensoriais.

Literalmente, estamos começando do zero.

Mas, sigamos.