08. O pedaço de cera: a ideia de infinito como “coisa real por fora”

A via introspectiva do meu experimento intelectual alcançou seu termo. De posse, das três ideias indubitáveis que descobri e do critério de existência que deduzi, já me sinto à vontade para abrir os olhos e enveredar pela via contemplativa.

Abro os olhos e o que vejo? De imediato, reconheço que boa parte das ideias do meu jardim solipsista têm correspondência no mundo, e todo o resto parece estar a ele relacionado, mesmo como entes de razão.

Suponho que tudo são criaturas como eu – que agora pareço mesmo ter um corpo – e finitas como eu. Porque, como eu, duram. Duram, mas não são causa de si. Mudam com o tempo. Mas o que é o tempo? Duração das coisas, sucessão de fatos, a substância de que são feitas as coisas? Não sei. Sei apenas que, apesar do evidente efeito do tempo sobre as coisas, elas permanecem sendo o que são. Parecem carregar em si, como o percebeu Aristóteles, uma potência de ser sobre a qual se aplica sua vontade em sucessivas e e incessantes atualizações até chegarem ao fim – ou a um fim. Isto é, até esgotarem toda sua potência de ser ou alcançarem sua finalidade. Mas essa potência já está lá, virtualmente dada, invisível aos olhos, mas sensível ao espírito, como a árvore que intuo na semente da fruta.

De novo, estamos nos limites da linguagem. Melhor abandonar esse olhar genérico e acompanharmos Descartes num dos momentos cruciais da literatura filosófica, a experiência do pedaço de cera, na tradução quase mediúnica de Bento Prado Jr. e J. Guinsburg:

“Tomemos, por exemplo, este pedaço cera que acaba de ser tirado da colmeia: ele não perdeu ainda a doçura do mel que continha, retém ainda algo do odor das flores de que foi recolhido; sua cor, sua figura, sua grandeza são patentes; é duro, é frio, tocamo-lo e, se nele batermos, produzirá algum som. Enfim, todas as coisas que podem distintamente fazer conhecer um corpo encontram-se neste.

Mas eis que, enquanto falo, é aproximado do fogo: o que nele restava de sabor exala-se, o odor se esvai, sua cor se modifica, sua figura se altera, sua grandeza aumenta, ele torna-se líquido, esquenta-se, mal o podemos tocar e, embora nele batamos, nenhum som produzirá. A mesma cera permanece após essa modificação? Cumpre confessar que permanece: e ninguém o pode negar. O que é, pois, que se conhecia deste pedaço de cera com tanta distinção? Certamente não pode ser nada de tudo o que notei nela por intermédio dos sentidos, visto que todas as coisas que se apresentavam ao paladar, ao olfato, ou à visão, ou ao tato, ou à audição, encontravam-se mudadas e, no entanto, a mesma cera permanece.

Talvez fosse como penso a atualmente, a saber, que a cera não era nem essa doçura do mel, nem esse agradável odor das flores, nem essa brancura, nem essa figura, nem esse som, mas somente um corpo que, pouco antes me aparecia sob essas formas e que agora se faz notar sob outras. Mas o que será, falando precisamente, que eu imagino quando a concebo dessa maneira? Consideremo-lo atentamente e, afastando todas as coisas que não pertencem à cera, vejamos o que resta. Certamente nada permanece senão algo de extenso, flexível e mutável. Ora, que é isto: flexível e mutável? Não estou imaginando que esta cera, sendo redonda, é capaz de se tornar quadrada e de passar do quadrado para uma figura triangular? Certamente não, não é isso, posto que a concebo capaz de receber uma infinidade de modificações similares e eu não poderia, no entanto, percorrer essa infinidade com minha imaginação e, por conseguinte, essa concepção que tenho da cera não se realiza através da faculdade de imaginar.

E, agora, que é essa extensão? Não será igualmente desconhecida, visto que na cera que se funde ela aumenta e fica ainda maior quando aquela está inteiramente fundida e muito mais ainda quando o calor aumenta? E eu não conceberia claramente, e segundo a verdade, o que é a cera, se não pensasse que é capaz de receber mais variedades segundo a extensão do que jamais imaginei. É preciso, pois, que eu concorde que não poderia mesmo conceber pela imaginação o que é essa cera, e que só meu entendimento é quem o concebe; digo este pedaço de cera em particular, pois para a cera em geral é ainda mais evidente. Ora, qual é esta cera que não pode ser concebida senão pelo entendimento ou pelo espírito? Certamente é a mesma que vejo, que toco, que imagino e a mesma que conhecia desde o começo. Mas o que é de notar é que sua percepção, ou a ação pela qual é percebida, não é uma visão, nem um tatear, nem uma imaginação, e jamais o foi, embora assim o parecesse anteriormente, mas somente uma inspeção do espirito, que pode ser imperfeita e confusa, com oera antes ,ou clara e distinta, como é presentemente, conforme minha atenção se dirija mais ou menos às coisas que existem nela e das quais é composta.”

O que Descartes vê “com os olhos do espírito”? Ou melhor: o que Descartes vê com os olhos do espírito simultaneamente ao que vê com seus olhos carnais? A cera como ente imerso num campo de possibilidades em constante atualização em resposta às circunstâncias do mundo ao redor. Em resposta ao calor, a cera derreteu-se, e espalhou-se líquida sobre a mesa, adequando-se ao relevo dela. Fosse outra a superfície, poderia ter tomado incontáveis formas, cujo número, indefinido, beira o infinito.

Eis aí: só reconheço a cera como um mesmo ser que dura porque a vejo contra o fundo virtual de seu campo de possibilidades infinito. E reconheço que esse campo é condição de possibilidade da existência da própria cera: sem ele, a cera não seria algo de flexível e mutável, capaz de responde livremente (segundo os limites de sua essência de coisa finita) aos estímulos do mundo.

Há a cera atual, visível aos olhos do corpo, e há o campo de possibilidades da cera, visível aos olhos do espirito. Percebo-os simultaneamente, o infinito potencial do campo como condição da existência atual da cera. Ou dito de outro modo: a simultaneidade do campo é condição da sucessão temporal da cera.

E o que vale para cera, vale para todos os outros entes, que por sua vez, conjuntamente, estão todos mergulhados num vastíssimo e impensável campo de mútuas compensações que é o Cosmos. Isto é, do ponto de vista ontológico e metafísico, o infinito é condição de existência do finito como ente sucessivo. É o campo que conserva o ente no ser.

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